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Brasil Boca de Ouro

February 29, 2016

O verdadeiro descobridor do Brasil foi o mesmo sujeito que escreveu, há 57 anos, a peça O Boca de Ouro. Nelson Rodrigues, ao contar a saga de "Boca", inspirado no bicheiro carioca Arlindo Pimenta, conseguiu, talvez até mesmo de propósito, traçar um perfil tanto do poder em si quanto da ambição desmedida para conquistá-lo e mantê-lo a qualquer preço. O país de Boca de Ouro é o Brasil dos corruptos, dos traficantes e dos políticos desonestos que, paradoxalmente, acaba dando mais certo do que errado. Um país de desdentados e, ao mesmo tempo, uma pátria com dentes de 24 quilates.

Tal qual a burlesca América Latina, o Brasil continua um país que, ao menor sinal de prosperidade, manda arrancar dentes sadios para colocar dentadura de ouro. Continua pobre em espírito, mas rico como o bicheiro da peça de Nelson. Os governantes, como Bocas de Ouro, vão tocando suas vidinhas medíocres se achando líderes de uma grande nação, torrando dinheiro público como se desse em árvores, dizimando a última esperança de quem acreditava que ela era páreo para o medo.

Gastos governamentais absurdos com cartões de crédito, diárias, hotéis de luxo, viagens internacionais, somam-se a ministérios inúteis, programas inócuos como tapa-buracos e PACs que não saem do chão, a desvios e mais desvios de dinheiro público em emendas parlamentares incipientes, em obras superfaturadas ou que jamais saíram do papel. Dá a impressão de que ter o rabo preso é hoje condição sine qua non para exercer cargo público no Brasil. Boca de Ouro, quase 60 anos depois, deixou de ser, conforme o crítico de teatro Sábato Magaldi, "uma tragédia carioca" para se tornar uma tragédia nacional.

Lula da Silva é a própria síntese do Boca de Ouro rodriguiano. Surgiu como o operário pobre de origem humilde e, a partir daí, construiu sua autoria mitológica particular ("trabalhando com realidades arquetípicas, sem qualquer compromisso substancial com o mundo objetivo", segundo Magaldi, ao se referir ao autor na construção de Boca de Ouro), até chegar ao único cargo que, de acordo com ele, estaria a sua altura: a Presidência da República. Ao chegar lá, Lula nos é apresentado como realista, temente ao mercado e às coisas mundanas ("sem prejuízo aos aspectos míticos da obra", relação que Magaldi estabelece adequadamente à transição do Boca antes e depois de sua construção) e, mesmo transfigurando-se em alguém que não o operário líder de um partido de trabalhadores, continua a ser bem recebido nas varandas do imaginário do povo brasileiro, particularmente naquelas beneficiadas pelas codornizes do Bolsa Família.

O Brasil e Lula também se parecem com a história do Boca de Ouro do genial Anjo Pornográfico. Na peça teatral, Boca só aparece no início e some da cena física durante todo o tempo restante. Surge apenas, no decorrer do enredo, materializado por depoimentos de Dona Guigui, Agenor e de outros. "Boca de Ouro passa a existir pelos olhos dos outros", de acordo com Sábato Magaldi. Torna-se "um deus pagão, cego no seu furor, belo e inviolável na pujança de sua fúria desencadeada". Não é Lula assim também, hoje muito mais uma imagem do que um objeto? Não é Lula uma auto-caricatura, tornado onipotente por si próprio e pela corte bajuladora, fruto do esbanjamento do dinheiro e do poder?

Poder, corrupção, vaidade, perdularismo: ingredientes bombásticos para uma tragédia nacional como só Nelson Rodrigues seria capaz de imaginar. Uma tragédia do Brasil e de Lula. O que nos consola é saber que o imoral, o traidor, o sacana, é sempre punido pelo autor no final. E o final se aproxima.

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