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O galo de rinha

April 21, 2016

Bernardão era o galo mais temido dentre os que se digladiavam todas as quintas-feiras à noite no “Coliseu” do Aristides. Tidi, como era conhecido, era o grande promotor de rinhas da região e deu o nome ao rinhadeiro no quintal de sua casa, no bairro Floresta, pois era um local onde somente grandes combates tinham vez.

Tidi, além de “promoter” de lutas sanguinolentas, era um galista misto de empresário, pajem, treinador e carrasco. Era um sujeito durão, que não tolerava desobediência, principalmente de seu pupilo Bernardão, campeão imbatível e dono de posição invicta até o momento. Bernardão tinha sentimentos ambíguos para com seu dono. Tinha-o como um pai, mas não se sentia um filhote, pois entendia que filhos podiam falhar, como qualquer outro ser, galináceo ou não. Bernardão não tinha medo de briga. Tinha, isto sim, receio de decepcionar seu dono, com a certeza de que Tidi não o perdoaria por uma derrota. Vida de Galo, pensava, resignado.

 

Numa quinta-feira de um verão daqueles em que as pessoas lembravam do famoso aquecimento global, surgiram rumores de que, nas redondezas, havia surgido um misterioso desafiante para Bernardão. Seu nome não poderia ser mais direto e aterrador: Exocet. Segundo os boatos que circulavam sem parar, o tal galo era um papilheiro dos melhores, de puas douradas polidas com esmeril. Diziam que era um verdadeiro míssil teleguiado, implacável e impiedoso com seus adversários, aliás, como todo galo de rinha.

 

Tidi ficou sabendo e mandou recado ao dono do galo. As palavras de Tidi aos emissários era de que o dono do tal “chester” o levasse à noite no Coliseu para uma surra sem precedentes. Bernardão, o galo de Tidi, apesar de ser um campeão, era um galo pacífico e só lutava para agradar ao Tidi. Não fosse por isto, preferiria mesmo é ir atrás de algumas frangas de todas as cores possíveis.

 

Tocou o sino do grande “match” da noite. Bernardão e Exocet iniciam a “botada” (primeiras olhadas entre os adversários). Bernardão, decidido a manter a estratégia vitoriosa que até então lhe dava a fama de campeão, investe seus esporões prateados contra Exocet. Enrosca-se em fúria total. Primeiras gotas de sangue caem da papilha de Bernardão, mas ele não acusa o golpe. É pau puro. A fumaceira de dezenas de cigarros acesos, os gritos e os gestos dos apostadores e espectadores criavam a atmosfera de guerra no Coliseu.

 

Intervalo. Começa de novo. Bicadas certeiras de Bernardão, penas de Exocet para todos os lados. Exocet cai, ofegante. Levanta-se. Bernardão está tonto. Percebe-se uma pausa na luta, dois ou três segundos que prenunciavam o gran finale. Exocet, fazendo jus a seu nome, lança seu esporão teleguiado em um golpe fatal. Bernardão cai. Tidi fica em pânico. Fim da luta.

 

Tidi pega Bernardão quase sem penas e ensanguentado, coloca-o em seu colo e diz: “Filho da puta, desgraçado, tu não és de nada, perder para um canário desses...”. Bernardão olha para Tidi com indisfarçável alegria. “Tu não morre, viado. Te proíbo de morrer!”. Bernardão sorriu. Por incrível que pareça, estava feliz.

 

Morreu. Pela primeira e última vez na vida, havia, enfim, desobedecido e decepcionado Aristides.

 

 

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