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O povo do carnaval

April 17, 2017

 

Prefiro escrever sempre diante de duas circunstâncias: quando sei muito sobre o assunto ou quando sei pouco ou nada sobre o tema. Falar sobre o carnaval está neste segundo vetor. Não gosto, não danço nem pulo, não canto e não assisto na TV. Não simpatizo também quanto ao feriado. Considero excessivo para quem não tem sequer um país para chamar de seu. O carnaval é o feriado de conveniência para políticos, bandidos, corruptos e congêneres. É o terror dos comerciantes e dos que geram empregos num mês com 10% a menos em jornada de trabalho sem que tenham um tostão sequer de compensação por isto. Está tudo errado com o carnaval? Claro que não! É a ilha dos sem-férias, o festejo do turismo e a festa dos mais ricos e dos mais pobres. Este é o meu ponto.

 

O carnaval de Porto Alegre jamais foi um evento de grande relevância. Uns dizem que não somos vocacionados para os folguedos de Momo, outros dizem que o samba por aqui não é tão incensado. Antes que eu continue a tecer a besteirada que as pessoas dizem, permitam-me revelar que nossa cidade é uma cidade tipo CBS – Casa/Brique/Supermercado. No verão, viramos CBS-F, pois incluímos a insanidade da Freeway. Nós somos parte de uma cidade que não tem lá grandes “especializações”. Dentre as inúmeras virtudes que NÃO possuímos, o samba e o carnaval são apenas – APENAS – algumas delas. Na comparação com capitais brasileiras de mesmo porte, descobrimos que também não somos tão bons em turismo, segurança, história, gastronomia, tecnologia, música, teatro, televisão, rádio, cinema e outras tantas coisas. Quando vejo uma “sumidade” dizendo “não somos bons em carnaval”, procuro lembra-lo da lista acima. O fato é que não somos bons. Não temos apelo competitivo, não temos atrativos que não estejam imundos ou pichados (visite a Usina do Gasômetro, mas não use elevadores e use um boné, pois os pombos moram lá dentro e defecam com frequência). Nossos parques são inseguros e fedem a cocô de pobres coitados que não tem onde viver, comer, cagar. Museus? Que museus?

 

Sei que sofrerei um ou dois ataques por conta deste meu texto. Os incautos, entretanto, ainda não sabem que o pior segue abaixo...

 

O carnaval é a festa dos pobres. Alguns idiotas usam o termo “menos favorecidos”. Idiotice pura. É a festa dos pobres, dos negros, dos totalmente desfavorecidos. O Povo do Carnaval, pobre, negro, é de uma nobreza gigantesca, o que deveria servir de lição para todos nós, mas principalmente para os que usam questões raciais para se acoplarem a partidos políticos cretinos ou para a simples subserviência aos ditames do politicamente correto. O Povo do Carnaval é o povo que sofre, chora, mas fica quieto. Não se ouve a lamúria nem o ranger de dentes do Povo do Carnaval. Mesmo com a brutalidade que sofreram neste ano em Porto Alegre, o Povo do Carnaval faz o que pode.

 

O Porto Alegre em Cena está garantido. O carnaval não. O Porto Verão Alegre, garantido. O Carnaval é caro e, afinal, os cofres da cidade estão raspados. Os eventos e saraus da tal “comunidade cultural”, liderada por um sujeito que diz que só ele é que entende de cultura, estes estão garantidérrimos. O carnaval? Ah, não tem dinheiro, mas vamos ajudar a obter recursos da iniciativa privada (dupla de palavras cujo mau uso nos faz pensar que a tal iniciativa privada tem de botar mais dinheiro nas paradas, além das toneladas de impostos que já paga...). Cadê o dinheiro? Chegou? Quanto? Para se comprometer com o tal cumprimento com o chapéu alheio, banho de luzes e flashes. Para vir a público declarar o quanto conseguiu, o mais discreto silêncio.

 

Ao Povo do Carnaval, aquele sobre o qual se deitarão as desculpas e as mazelas do caixa do paço, meus sentimentos. Não bastasse a violência de tons quase racistas, ao discurso foram acopladas as violências contra os carros alegóricos e contra a falta de extintores de incêndio (mas nem isto, Alabarse???). O carnaval não sai, mas não sai MESMO. Nem mesmo ladeando a Semana de Porto Alegre!

 

Não somos bons em carnaval. Não somos bons em gestão pública, em justiça e em cidadania. Não somos bons.  Não somos.

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