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A viagem

July 25, 2017

 

 

Paro o carro diante de uma faixa de segurança. Por ela, passa uma senhora com uma máscara daquelas de papel, para filtrar o ar. Imagino que seja por conta de uma séria doença respiratória. Ao seu lado, um senhor mais velho, de braço com ela, segurando uma bengala. Ambos caminham bem devagar, diante de meus olhos condescendentes. Seu destino, às sete da manhã, era o atendimento pelo SUS da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Arranquei com o carro, pensando em quanto tempo o pobre casal de velhos demoraria para ser atendido, pedindo a Deus para que fosse em tempo mais curto possível. Pensei, em seguida, na Dilma Rousseff andando de bicicleta com 4 seguranças em dois carros, nos 9 milhões de aporte único do Lula num plano de previdência, nos quinhentos mil do Rocha Loures que eram para Michel Temer. Lembrei também de Sérgio Cabral e suas caríssimas tele entregas de comidas exóticas na prisão e dos tratamentos diferenciados dados a políticos nos hospitais mais caros do país. Uma sensação de impotência total se instalou em mim. Fiquei quieto, triste, pensando na dor de ser brasileiro, na desgraça de ser humano e na agonia de poder fazer muito pouco ou quase nada.

 

Em seguida, me veio a imagem de um avião derrubando as torres gêmeas. Não as de Nova Iorque. As de Brasília. Se fosse possível acabar com Brasília, recomeçando o país a partir de novos lugares, descentralizados, melhor controlados, como seria bom. Brasília é um monumento horroroso em termos arquitetônicos, uma aberração administrativa, um erro crasso e novelesco com tons de guerra fria. Brasília deveria, assim como Atlântida, desaparecer sob a ira de um país inteiro. É claro que não me refiro aos cidadãos de Brasília, às pessoas que moram na cidade. Refiro-me à infestação que foi para lá levada pelo nosso flautista de Hamelin, o insano e megalômano Juscelino Kubitschek. Juscelino e sua flauta, ao invés de jogar os ratos no mar e afogá-los, preferiu dar a eles uma bela região no Planalto Central. E lá os ratos se acasalaram e proliferaram. Aqueles pratos virados pra cima e pra baixo, aqueles dois prédios nojentos, hoje apenas representam o que o país tem de pior.

 

No caminho de volta pra casa, checo a temperatura. Oito graus e pode chegar a três durante a madrugada. Passo por baixo do viaduto Otávio Rocha, no centro de Porto Alegre. Dezenas de pessoas já estão a postos, em colchões, barracas improvisadas, cobertas imundas. Mais um dia horrível terminou, mais uma noite de pavor, com direito a ratos, frio, fome e violência vai começar. Lembrei-me das jóias de Adriana Ancelmo, do Sítio de Atibaia, dos casacos de pele comprados com dinheiro público, lembrei de Valérios, Joesleys, Odebrechts e outros tantos bandidos, ladrões e sonegadores tão conhecidos e admirados. O Brasil é aquilo ali. As ruas do Brasil são as calçadas do Otávio Rocha, seus prédios são barraquinhas feitas com plástico preto. O Brasil é uma miséria só.

 

Minha mente se enche de raiva. Não somos mais humanos, perdemos os sentidos, somos seres que não possuem mais tato, nem visão, nem outro sentido qualquer. Morremos e respiramos. Somos incapazes de corrigir os erros que cometemos. Morremos e apenas agora começamos a desconfiar disto. A desfaçatez e a corrupção, enfim, mostraram suas faces mais medonhas. É cada um por si. Como bicho no mato. Salve-se quem puder. O Brasil não acabou. Nós é que acabamos. Somos o nada que não sente, o olho que não chora e o grito que não mais sai. Nós somos o fim.

 

Já na rua onde moro, dou o último gole na lata de Coca-Cola. Abro a janela e jogo-a no meio da rua. Nunca havia feito isso antes em 55 anos. Agora fiz. Pronto. Agora sim, sou brasileiro da “gema”. Da próxima vez que um casal doente tiver de passar diante de mim, levará uma buzinada. Mudei meu trajeto e não passo mais debaixo do Otávio Rocha. Ver gente pobre? Eu hein....

 

Abro a porta, abraço e beijo minha esposa e filhos. Saio à rua para recolher a lata de Coca-Cola. Coloco no lixo. Separei algumas roupas que não me servem mais, alguns litros de leite, pães e voltei para o Otávio Rocha. A luta vai continuar.

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